Sua irmã não te atende. Você perdeu o posto para a sobrinha prestes a nascer e está muito feliz com isso. Desce a ladeira de casa pensando que vai ter que segurar a pequena enquanto conta seus martírios, mas tem certeza de que entre uma mamada e outra ela vai estar lá para te ouvir, impávida como a idish mami que se tornou mais forte, mãe, porém sua irmã mais velha, e com isso até mesmo a bebê que vai nascer (e que eu já amo com a devoção de um filhote) vai ter que entender.
Seu analista não te atende. Enquanto isso você continua descendo a ladeira até chegar ao ponto de ônibus para ir ao trabalho. Tem que ser rápido, porque uma vez lá é hora de engolir o choro e respirar o briefing. É preciso agir rápido.
Sua mãe ainda não pode te atender. Precisa ser poupada dos falatórios da noite anterior, e mercúrio que logo agora resolveu andar para trás (e que rege entre outras coisas importantes, a comunicação)se meteu no meio e fez telefone sem fio entre uma cidade e outra. Não nos entendemos, e até isso é inédito.
Ando mais um pouco pensando em qual das minhas amigas entenderia o que nem eu sei o que é. Resolvo poupá-las. A esta hora já perdi um ônibus bom (dos que tem ar condicionado) e estou perto do ponto ao ponto de já enxergar meus companheiros de espera. Acabou.
Engole a dor, o choro, olha para o céu azul clarinho, e percebe que um fim de semana complicadíssimo não é nada perto do bonito que a vida vai te trazer.
Percebo que é tudo uma questão de timing correto. Existe a hora de falar, ficar quieto, dizer que ama pela primeira vez, cortar o que não te serve mais, atender o telefone, falar em uma reunião, começar uma medicação que te cure, abandoná-la por excesso de confiança.
Abandonei. Deixei por uma semana que a cabeça resolvesse o buraco com anti-corpos ou quantos corpos fossem necessários a ansiedade que existe em tamanho colossal.
Um, dois, três, quatro, cinco, comemoração, seis e se cai. No sexto dia ela cedeu.
E veio o medo, a perna inquieta, o ouvido que é pinico pra ouvir as besteiras de quem quer dizer, e a fraqueza, a enxaqueca, ansiedade, e....
E aconteceu.
De um lado ele me acolhe com um vinil de músicas felizes e comida, do outro ela me diz, “um gole de água e uma respiração” do outro, aquela que mais tem pressa de me ver feliz estrebucha contra a terapia, os remédios, o método.
Perai, e esse azul clarinho no céu pela manhã? E o abraço quente daquele que tanto me ama? E os conselhos da irmã barriguda que descomplica a vida com um gole de água? E o trabalho que vai andando, e acontecendo, e ficando bom, mesmo quando fica ruim?
A felicidade existe, mas há de existir nos momentos mais turbulentos da minha vida. Quem é que disse que depois da tempestade eu não me permito levantar como um gigante?
As coisas vão acontecer, eu sei bem que vão. Nem que para esperar por elas eu tome um comprimidinho aqui e outro acolá.
Para algum lugar esse tanto que eu tenho precisa desaguar. E eu prefiro que não seja pelo canto dos olhos. Eu prefiro que seja aqui, martelando teclas e formando palavras, sorrindo para o infinito e rindo da fraqueza que passa.
A sorte da vida é que tudo passa. Até os momentos ruins.
Passou.
Amém.