Monday, April 29, 2013

Oração ao tempo.

Soprando a fumaça pela janela, a lua me encara com o sorriso de gato da Alice e contra todos os motivos plausíveis, eu penso em você.
No meu rosto no seu ombro, na minha cabeça no seu colo, na minha língua no seu ouvido, no seu peso em cima de mim.
Faz tanto tempo, amor, que nada disso acontecia. E agora a vida chega me apresentando opções de trabalho, amigos novos, uma casa nova e eu luto para manter sua memória perto de mim.
Dói saber que agora alguém pode estar ocupando meu lugar na cama e brincando com os meus gatos, embora ao meu lado também exista um espaço que pode ser preenchido num dia desses de outono.
Eu não sei.
Penso nas mudanças, nas voltas do mundo, nos dias que passam e imagino como seria se nos encontrássemos de novo e tudo voltasse a ser como era. Mas não vai.
Porque minha vontade de ser feliz, amar e ser amada é uma fome constante, e eu preciso dar e receber para alguém que tenha a generosidade de aceitar e entregar de volta.
Mas tenho pena, porque minha vida solar, meus sorrisos, meus acontecimentos e meus dias trouxeram de volta quem eu fui quando te conheci, mas quando estávamos juntos, essa que eu era já não estava mais lá.
Tudo mudou, menos esse amor teimoso que chega de repente no início da madrugada pra me mostrar que a memória é uma coisa viva e física, e que pra esse amor ir embora, o tempo precisa passar.

Saturday, April 20, 2013

Frágil.

Há 20 dias eu coleciono dizeres, frases feitas, metáforas mal construídas, algumas lidas em porta de banheiros nojentos, outras ditas pelo amigo que ouviu da terapeuta durante a separação.

Coleciono ditados, parágrafos, versos e memórias, guardo cada um deles no meu diário imaginário para que eu os use em momentos apropriados. Cada hora do dia precisa de um pensamento diferente, assim como cada minuto precisa de um novo tipo de respiração.

Hoje fui a casa pegar os livros, os copos e os pequenos pedaços de um mundo que eu não conheço mais. Trago cada um para a casa que temporariamente me abriga e observo meses encaixotados em papelão. Ainda não é hora de acessá-los. No momento em que só a falta dele é concreta, eu prefiro não abrir mais nada.

Deixo malas fechadas e peço que meu coração esteja tão fechado quanto. Mergulhado em memórias até o dia em que eu vou deixa-lo sair e ser manuseado, com cuidado, por outras pessoas.

Órgão enrolado em jornal, protegido por plástico bolha e com um grande adesivo em neon onde se pode ler:

Cuidado, frágil.

Monday, April 15, 2013

Sobre amor.

Filha de pais separados, neta de avós casados há 63 anos. Crente, absolutamente crente no amor, na tradição, na família e na propriedade. Careta, coração quebrado.
Se separar é muito além de tirar as coisas de uma casa que você construiu, é tirar o corpo, a alma e o sentimento de uma relação que você construiu.
Por enquanto estou varrendo os caquinhos do meu coração partido. É triste quando o amor acaba e talvez ainda mais triste quando ele acaba e não é por falta de amor.
Existem dias que são particularmente mais difíceis que os outros. A cama nova que chega na casa temporária, as amigas que alugam um carro para tirar suas coisas do seu ex ninho de amor no final de semana, a concretização da separação.

Somos dois corpos distintos que não habitam mais o mesmo lugar, o mesmo colchão e os mesmos corpos. Somos distintos e por isso, e por planos de vida bem diferentes, não nos habitamos mais.

Agora tudo o que eu tenho é só meu, nada mais é dividido, nem as contas, nem a dor.

Ainda acho muito imaturo que duas pessoas que se amaram tanto e compartilharam a vida não possam compartilhar a solidão e a dificuldade de se desamar.

- Hoje é um dia difícil.
- Eu sinto saudades.
- Vi este livro e lembrei de você.
- Hoje encontrei um cachorro na rua, cara de sujo e pêlos duros, e eu quis sair correndo com ele pra casa.

Não existe casa. As malas sempre mal fechadas habitam o chão onde eu piso agora. Eu não sei pra onde vou daqui há um mês. Tudo agora é de caráter temporário, menos eu e você, que já somos duas pessoas que depois de tantos anos, não se falam mais.

Eu queria dizer “nunca se case”, “nunca more junto” e “tenha sempre um dos pés do lado de fora”, mas a crença no amor é mais forte do que eu, moça com seus vinte e muitos e muita vontade de ser feliz.

Se ele está por ai, seja ele quem for, talvez me encontre com o coração um pouco mais curado e aberto a acreditar nisso tudo de novo.

Eu quero acreditar. Nos bebês rosados, na casa de madeira, nos gatos e nos cachorros, mas antes disso em domingos na cama, em relações que suportem as contas do mês e a um cotidiano sem tanto tempero.

Em um homem que queira o melhor de mim de forma doce, generosa, atenta, que me leve para cima junto com ele, e que sobretudo, que eu o ame como um reflexo do melhor que ele traga para mim.

Monday, March 25, 2013

Girls.

Você sabe que não está sozinha no mundo quando mais alguém sente raiva, amor, ciúme, ansiedade. Quando ela escreve sobre a falta, sobre o TOC, sobre a crise, sobre vestidos que finalmente combinam com sapatos, sobre ficar feliz quando a calça cabe e o coração também.
Você sabe que não está sozinha no mundo quando toca a música sentimental dos anos noventa e a outra garota fecha os olhos emocionada, como você.
Você sabe que existe mais alguém quando se sente gorda demais, ou magra demais, ou normal demais ou descompensada demais.
Quando tem os mesmos problemas, as mesmas agonias, a mesma indignação.
Você se sente mais um quando o mesmo lugar do corpo dá prazer, a falta de ar é a mesma, os medos são compatíveis e as questões também.
E é ai que você sabe que vai ficar tudo bem, quando percebe que a dor e a memória são compartilhadas, porém a felicidade é única, personalizada, só sua.
Eu sei que não estou sozinha quando as palavras que insisto em colocar no papel poderiam ser escritas por você. Porque você me faz companhia no mundo.

Friday, February 15, 2013

Sobre paixão e trabalho.

O problema da paixão.

Nos momentos finais do curso de roteiro, o professor, um homem muito respeitado no mercado americano e um gêniozinho das palavras, soltou na sua sabedoria de setenta e um anos: “O grande tema do filme “Casablanca” não é a guerra, os refugiados ou a liberdade. Casablanca fala sobre a diferença entre amor e paixão. Os dois sentimentos são muito diferentes, e como muitos sabem, o que permanece é o amor. É raro, mas se pode ter os dois, e foi isso que Ricky escolheu. E é isso que eu desejo para vocês. Amem e sejam apaixonados. Tenham os dois”.

Passei minha adolescência e o início da vida adulta perseguindo um deles. A paixão. Quando as borboletas paravam de voar feito loucas no meu estômago eu dava meia volta e ia atrás de outra coisa que me causasse sensação igual. Paixão é uma droga, vicia, e os métodos de reabilitação são sofridos demais, então a melhor forma é sempre se apaixonar de novo pra não perder a sensação de euforia causada por um sorriso nervoso, o primeiro contato físico, a primeira declaração.

Depois de um tempo descobri que a continuidade da paixão é o amor, mas olha só que dificuldade, o amor não existe sem a paixão.
Convenhamos, não dá pra se amar muito uma pessoa e não querer enroscar os seus pés aos dela na cama. Não dá pra amar uma pessoa sem mesmo depois de anos, sentir o bafo quente dela no seu pescoço e ainda assim arrepiar os pelinhos da nuca. Não, você não vai ligar pra todos os seus amigos como no início, porque seu amor te ligou e te falou uma coisa bonitinha, a euforia passa, lógico, mas você nunca pode parar de se encantar porque ele ou ela mandou um “eu te amo” calminho no meio do trabalho.

O mesmo professor que disse isso sobre o filme “Casablanca” falou muito sobre os caminhos que nossos personagens tomam em um roteiro. Neste texto, por exemplo, eu ia começar a contar sobre a paixão profissional, mas até pra exemplificar uma coisa simples eu tive que falar de amor. Foi monotemática deste jeito que eu percebi que nunca ia conseguir fazer outra coisa que não fosse escrever. Já trabalhei com um monte de coisas, mas foi só quando comecei a escrever roteiros ou desempenhar alguma função ligada a escrita, que fui ser feliz.

Mas a paixão é difícil, já sabemos. A vida não é fácil para quem escreve por ofício além de por necessidade de vida. Dizem por ai que o mercado para os escritores anda bom, mas a verdade é que a gente rebola todo mês pra sobreviver. Não diferente do resto do povo, claro, mas a paixão de quem escreve é daquelas complicadas. A escrita é uma mulher ciumenta que pede provas de amor a cada segundo, quer saber até aonde você vai, até aonde escreve, até aonde aguenta as contas apertadas do fim do mês, o desemprego que pinta quando um projeto acaba, a necessidade física de publicar os livros.

Poucos ofícios pedem mais fidelidade. Querem a cabeça, o tronco, os pulsos e eu me entreguei por inteiro desde a primeira vez que ganhei meu primeiro salário escrevendo. “Então é possível trabalhar com o que a gente ama?” É, mas é difícil pacas.

Hoje é sexta-feira e o verão carioca chegou atrasado, mas cumpriu seu papel. Enquanto olho pela janela pensando em mergulhar a cabeça no mar e deixar meus medos irem embora, empacoto currículos e peço que a minha paixão esteja correta e não seja cruel comigo. É difícil, é muito difícil se manter são quando o calor invade os poros e a dúvida, à casa. Mas eu guardo aquela certeza teimosa dos apaixonados, aquela que quer fazer o mundo todo entender que seus atos tem razão. Meu coração é minha bússola, e com ele eu pretendo chegar a lugares seguros e acreditar que o ofício de escrever não vai me trazer apenas palavras bonitas, e sim um cheque bom no fim do mês. Afinal, paixão não sobrevive sozinha, e agora eu preciso que a vida me mostre amor.

Friday, December 21, 2012

O signo de capricórnio

Hoje o sol entrou em Capricórnio. Hoje acordei intolerante. É preciso dizer (até para mim mesma) que a intolerância é comigo, e não com o outro. Eu é que não aguento mais meus velhos vícios, sentimentos desgastados e desbotados pelo tempo. É preciso estar atento e forte, lembro. É dia de previsões. Não para o fim do mundo, mas para as cabras montanhesas. Leio o que diz uma astróloga amiga: “ daí que tem muita gente que vai acabar não se encaixando no seu padrão e saindo de cena…”. A palavra “aceitação” foi a última que eu usei este ano. Foi minha palavra dos últimos meses. Aceitar, aceitar o que o outro é e conviver com isso, embora agora o sol entra pela janela com ares de apocalipse, o calor me faz trocar de posição 5 vezes e eu percebo que a minha falta de paciência, contrariando o estigma do zodíaco, quer mesmo é me fazer aceitar a mim mesma. Quando eu fizer um pedido no dia do meu aniversário, talvez eu peça isso. Não dinheiro, mas aceitação, não amor, mas aceitação, não sucesso, mas aceitação. De mim mesma, do que eu realmente quero, da forma com que eu quero amar e ser amada, do quanto eu preciso para ter sucesso, e de quanto eu preciso em relação a dinheiro. Aceitar que a minha responsabilidade por mim mesma há de ser maior do que pelo outro, que ninguém morre porque está sozinho, e lembrar por fim todas as vezes que me aventurei pelo mundo sem ter noção da onde eu iria pisar. Aceitar que preciso mudar muita coisa, aceitar que não, por mais que eu tenha esquecido, eu não tenho medo nenhum da liberdade, do amor próprio, do silêncio da minha casa e da minha cabeça. O sol entrou em capricórnio e iluminou a sombra que ainda estava aqui. A paciência de jó e da cabra, vão continuar subindo a montanha comigo até que a aceitação diga o que é necessário e o que não é. Me preparo para uma enxurrada de alegrias e certezas, a certeza da alegria, e que 2013 vai ser do jeito que eu quero que ele seja. Eu. Ninguém mais é responsável pela minha felicidade a não ser eu mesma.

Wednesday, October 31, 2012

Para o meu vizinho.

É o terceiro banho do vizinho em menos de 3 horas. Sei disso porque estive aqui o dia inteiro, nesse calor que deixa as coisas amorfas, trabalhando com um ventilador barato, me sentindo um detetive particular em uma salinha minúscula nos anos 70. Rio de Janeiro – Texas. Em um momento ele esqueceu a letra da música. Da janela, fumando e olhando a luz que vem do seu banheiro, eu grito: FELIZ, pra completar o verso que não saiu. Grito FELIZ, triste, pela janela do quinto andar. Eu disse que ia sair para comer, mas ao invés disso preferi uma longa caminhada. O estômago reclama e a cabeça pesa. Meu apetite é o mais voraz da família. Acontece que esta fome resolveu se espalhar por todos os cantos quando eu me tornei adulta. Fome de felicidade, penso no espaço em que o vizinho esquece um refrão do George Michael. Silêncio. Foi o que precisava para que eu finalmente escutasse a barriga roncando e o coração igualmente faminto. Preciso alimentar os dois. Eu preciso. Eu.

Monday, October 15, 2012

Desculpe o auê.

Os astros me disseram para ser forte, porque sim, eu sou forte, então levanto para fazer um café que me deixe em pé enquanto escrevo. Estou sozinha em casa. Sim, existem os gatos, mas o roçar do pelo e o miado entre as minhas pernas me fazem companhia até a página dois. Gosto desta expressão. Mas continuo, estou sozinha em casa. Sou forte, ela disse, o que preciso é matar meus fantasmas. Mas hoje, o que eu queria mesmo era um colo aconchegante, um cafuné na cabeça, e alguém que cuidasse de mim. Sim, a exposição da literatura é enorme, e eu nunca consegui escrever nada sem deixar meu peito aberto e a pulsação ecoando pela casa. Se é ficção ou não, vai ser verdadeiro da mesma forma, assim como a vontade de agora, vontade verdadeira, de afeto, afago, presença. Penso em todas as viagens que quero fazer. Me imagino em uma rua com luzes brilhantes e vitrines de lojas, um idioma que ainda não conheço, e ao lado, as amigas que tanto amo. Penso no meu lugar preferido do mundo, nas esquinas onde deixei um pouco de mim, e lembro que ele disse que um dia me levaria até lá. Penso tanto enquanto espero o café e o trabalho ficarem prontos, que por um instante esqueço que é apenas segunda-feira. Eu queria saber menos, racionalizar menos, sentir menos, me questionar menos. Não querer descobrir durante quantos dias de um ano eu vou ficar sozinha pensando nas viagens que eu ainda não fiz, olhando para os lados a procura de um amor que pode ir pra um destino exótico a qualquer momento, enquanto o que eu mais quero são letras impressas, carinho distribuído e alguém que queria muito estar no mesmo lugar do que eu. Ser forte é se assumir frágil. Quero acreditar que sim. Então sou forte, de tão frágil que sou. E não sei ser de outro jeito, meu bem.

Friday, August 31, 2012

Estudos sobre o amor.

Sobre dizer “Eu te Amo”.
Você tem 100 Eu te Amo para dizer antes de encontrar o amor da sua vida. Quando encontra-lo, reduza esse número. Muitas pessoas vão dizer que isso é errado. Não acredite. Diga Eu te Amo quando o sentimento se tornar físico. Você vai saber a hora, e vai saber como é. Vem do estômago, passa pelo peito, e entala na garganta. Seus pelos vão arrepiar e você vai precisar dizer, vai dizer. Portanto poupe o “Eu te Amo” ao desligar o telefone, quando sair de casa, e ao ir dormir. Use com parcimônia.
Sobre o amor que você dá, e o amor que merece de volta (todo.)
Pelo menos três vezes por semana, se abrace. Antes de abraçar seu objeto de desejo, se abrace, e também aos seus amigos, a alguns estranhos, e a sua família.
Sobre amor e apneia.
Foi aprendido que só se ama com snorkel, e que quando a gente se deixa tomar pelo amor e esquece de respirar por cima das ondas, o amor perde o interesse e não se importa que a gente afunde . Mas quando se afunda pela primeira vez, existe o impulso vital pela volta a superfície. Por isso acredito que todo mundo sobrevive.
Sobre timming.
A sua necessidade de carinho, amor, sexo, e conversas com a luz apagada não tem o mesmo timming de muitas pessoas. Não se desespere. (d) ex – espere.
Sobre a lua cheia.
Às vezes a gente fica mais sensível, e muitas vezes nestes momentos, o mundo, e ele ou ela estão firmes como rocha. Procure seus amigos.
Sobre:
Antes de abrir os olhos de manhã, lembre que o mundo é vasto, que o tempo não espera, e que seu amor que sobra sempre pode transbordar em outro lugar. Existem amores e amores na vida da gente. E eles vão embora, e depois chegam de novo. Nunca duvide disso. Nunca duvide de nada.

Friday, August 10, 2012

Gitana

Minha bisavó judia se chamava lua em Idish, era ucraniana e lia o futuro na borra do café. Era um pouco cigana e só parou em um país quando encheu o saco de parir seus filhos em navios. Segundo meu pai, ela nunca errou o destino de ninguém. Não sei se chegou a ler algo para mim, mas dela, eu herdei as coxas, o gosto pelo café e uma mochila nas costas de quem vem de longe e não sabe ao certo onde vai parar. Alguém que só sabe da escoliose que aumenta. Mas que ainda pode parir seus filhos (no caso, livros) ainda em muitos navios.

Saturday, July 28, 2012

Sábado.

- Você não sente saudade de mim.
- Como você pode afirmar isso?
- Porque se eu estivesse ai, talvez não sentisse saudade de você.
Penso se ele sente liberdade lá fora, e lembro que nem sempre funcionou assim. Lembro de fugir às 4h da manhã para um orelhão congelado, em uma rua tão congelada quanto de um frio que media -5 graus em pleno inverno em Israel. Corri com uma amiga que sentia a mesma coisa que eu. Paixão. Fomos escondidas para o orelhão, colocamos nossos cartões que diziam coisas em hebraico e no quinto toque ele atendeu.
- Alô, oi, sou eu! Que saudade! Tô te ligando aqui de Jerusalém... Cheguei aqui hoje!
- Legal.
- Legal? Só isso? Eu corro às 4h da manhã pra poder te ligar, num frio do cacete e você diz, “legal?”
Na verdade isso é o que eu devia ter dito. O que eu falei realmente foi:
- Você não está feliz por eu ter te ligado de tão longe?
Ele respondeu:
- O que você queria? Que eu soltasse fogos de artifício só porque você me ligou de Israel?
Foi assim. Lembrei de cada palavra e até do frio na nunca enquanto escolhia um filme às 23h de sábado. Andei um pouco até achar a locadora, e depois de passar por portas trancadas, a luz que vinha de dentro da loja me pareceu um milagre. Estava aberta, e tinha milhares de dramas que não eram os meus. Enquanto olhava os filmes de short curto na ponta do pé, imaginei um alguém que ia chegar e reparar nas minhas coxas. Na verdade eu esperei por ele. Esperei enquanto olhava os filmes que tinham chegado naquela semana. Esperei por um cara alto, moreno, cabelos e olhos castanhos, mal arrumado, amassado, talvez de óculos, e que olhasse para as minhas pernas. Fiquei ainda mais na ponta do pé. Os homens chegaram e saíram, com suas esposas, namoradas, amigas. Nenhum deles era o homem que eu esperava. Fui para o andar de cima por sugestão da vendedora que percebeu que eu estava tempo demais na mesma sessão.
- Não quer ver os filmes que a gente tem lá em cima?
Fui. E do andar de cima continuei esperando que ele chegasse como quem não quer nada, escolhesse um filme e comprasse uma coisa pra beber. Desci. Imaginei ele chegando perto de mim. A gente ia sorrir um para o outro em uma espécie de cumplicidade de duas pessoas que pegam filmes às 23h de sábado. Ele ia pedir uma sugestão, eu ia pedir uma sugestão também e ele me indicaria um filme qualquer, sem nenhuma pretensão de me oferecer um Godard para sábado. Porque ele seria esperto o bastante para entender que nem todas as meninas querem assistir Godard sozinhas em um sábado à noite. Por fim ele me diria aonde mora. Há alguns blocos daqui. Por fim ele me chamaria para assistir ao filme com ele. Me diria que não é um psicopata, que não se aproveitaria de mim se eu não quisesse, que não me ofereceria nenhum cigarro caso eu não fumasse, que não faria pipocas se eu tivesse de dieta, mas não me prometeu que não falaria durante o filme, já que queria muito saber sobre mim. Ele diria tudo isso olhando para as minhas pernas de fora. Me falaria que ia assistir a qualquer coisa que eu escolhesse, até esse filme boboca que estava na minha mão. Mas que queria a minha companhia para este sábado. E eu não teria como recusar. Ele não apareceu. Na volta para casa com o mesmo filme boboca que veríamos juntos, eu penso no quanto seria bom se alguém criasse uma rede social de pessoas inteligentes, interessantes, que tomassem banho todos os dias, sem antecedentes criminais e com muitas historias para contar. Uma plataforma para que eu e você, que estamos separados por algumas horas, quarteirões ou cidades, pudéssemos finalmente nos encontrar e nos fazer companhia no sábado a noite. Mas acontece que já existe uma rede para isso.
Algumas pessoas chamam de acaso. Os mais ambiciosos chamam de destino.
Eu faço parte do segundo grupo.

Monday, July 16, 2012

Across the universe.

Ela aqui, ele lá. Quando eu escrevo, coloco os dois no mesmo lugar. Ela aqui, escutando Camera Obscura. Ele lá, ouvindo música vanguardista. Ela aqui, tomando sopa com fibras. Ele lá, comendo fish and chips with a large pint. Ela aqui, trabalhando atrasada. Ele lá, sendo elogiado por seus muitos chefes. Ela aqui, chorando de emoção quando escuta esta música. Ele lá, chorando de emoção quando escuta uma música. Ela aqui, se identificando com a personagem principal de uma série. Ele lá, sendo personagem principal de sua própria vida. Ela aqui, abraçando seus avós e o cachorro. Ele lá, abraçando artistas e cuidando de grandes negócios. Ela aqui, coração apertado em uma fria, fria noite de Julho. Ele lá, vestindo jaqueta jeans em um parque Europeu. Ela aqui, sentada na cama imaginando como ele está. Ele lá, dormindo o sono dos justos, sem imaginar que na verdade ela escreve. Sem nem saber o quanto ela escreve. Ela escreve. Ela aqui, ele lá. Quando ela escreve, coloca os dois no mesmo lugar. E imagina se ele sente saudades. Ela sente.

Saturday, July 14, 2012

Who are you?

Não Dr. , é mais do que isso. É uma ausência que vai além. Hoje ela disse que estava com saudades de mim. Sarcástica, inteligente e charmosa. Gostei do elogio mesmo que no passado, e confirmei que continuava tão irônica quanto era antes. Eu ainda estou aqui. Em algum lugar entre as partes que eu não gosto e o que dói dentro de mim. Cortei açúcar, carboidrato e terroristas emocionais pra ver se ainda a encontro, mas sei que a essência ainda guarda muito do que eu já fui. A parte boa. Eu estou velha pra ir pros mesmos lugares e ver as mesmas pessoas embora esteja confiante na minha solidão, o que me faz ir e voltar de qualquer lugar a hora que eu quiser. O senhor diz "independência" e eu concordo. Talvez seja hora de deixar a velhice em casa e me misturar a todos os outros que buscam drinks e felicidade no mesmo local. Alguns acham. Eu achei, e agora me convenço a pintar os olhos de preto e a boca de vermelho. Eu nunca usei batom até hoje. Sei que existe uma primeira vez para tudo, e que você apoia que eu tenha novas experiências. De batom vermelho eu penso que se tivesse abandonado o aparelho ortodôntico aos 18 anos hoje minha falha entre dentes, motivo de tanto bullying, podia me tornar a Vanessa Paradis. Claro, eu estou sendo irônica. Embora muitas vezes eu tenha me afastado de mim, tem esse algo que nunca vai. Ainda bem.

Sunday, July 01, 2012

Devolve meu dinheiro, Jung.

No sonho eu e ele tínhamos deixado a casa. Não morávamos mais lá havia dois meses, e já estávamos separados desde então. No sonho tinha ficado toda mobília, a cama, o armário cheio de comida, um jantar pela metade, e nosso gato de estimação. Deixamos a casa imediatamente após o rompimento, e cada um seguiu seu caminho sem dó. Quando nos encontramos de novo na rua, ela gritava do outro lado da calçada obrigando ele a voltar. Eu falei que ele devia explicações em relação a casa, ao que tinha ficado de nós dois lá. Disse que eu tinha coisas, mas não queria pegar, eu só queria saber do gato. - Eu deixei o gato lá. - Como assim? O gato sozinho em casa? A cozinha do jeito que tava? O jantar pela metade? Mas, o gato sozinho naquela casa? Isso tem dois meses! Você nunca mais voltou? - Eu nunca mais voltei (E ela do outro lado da calçada aos berros obrigando que ele cruzasse a rua e dizendo que ela não permitia que ele falasse comigo) Nessa hora eu me descontrolei. Comecei a gritar e mesmo aquele bairro, a rua dele, ambos tão profundamente barulhentos, não abafavam os meus gritos de raiva. - Foda- se se a gente se separou, você não podia ter deixado o gato morrer! Você não podia ter deixado sozinho! Você disse que ia cuidar dele não importa o que acontecesse, você disse que não o abandonaria, que ele não tinha culpa de nada, e você simplesmente deixa ele lá? Ele e todas as suas coisas? Você simplesmente fechou a casa e nunca mais voltou? Eu nunca vou ter coragem de voltar lá. Você tem que voltar com algum tipo de autoridade de saúde pública, porque você deixou tudo morrer, e agora vai estar triste, sujo, e isso vai te perseguir pra sempre. A falta de consideração com o gato. Ele simplesmente se calou enquanto ela continuava a gritar mandando ele voltar pra onde ela estava. Eu continuei gritando pelas ruas do bairro que grita mais do que eu. Acordei com uma pena profunda do gato imaginário, abracei forte os dois que passeiam pela minha casa e escrevi meu sonho. No dia seguinte ela interpretou. Disse que o gato correspondia ao nosso relacionamento passado e a promessa de que sempre seriamos amigos, que sempre participaríamos da vida um do outro, e o abandono da promessa e a falta de coragem pra bancar uma amizade pura perante a moça, simbolizou o desleixo com o gato do sonho. Uma vida. Hoje cuido dos meus bichos, principalmente dos meus grilos, e deixo que ele fique na calçada enquanto vivo meus dias implorando calma de gato e só amor de verdade. O qual felizmente eu encontro todos os dias de manhã, pronto pra dizer que eu sonho esquisito demais, o que é realmente verdade.

Wednesday, June 20, 2012

No more pain.

Às vezes eu escuto uma música da Jewel chamada “Hands”, que eu não escuto desde 2001. Ou na verdade eu escute desde 2001. Às vezes eu acho que certas situações só acontecem comigo, mesmo que eu acredite em tudo, principalmente em inconsciente coletivo. Talvez inconsciente coletivo seja quando uma pessoa quer muito ver a outra, e a outra também queira muito ver essa pessoa e esses pensamentos se encontrem e faça que essas duas pessoas se encontrem também. O mesmo acontece quando duas pessoas pensam na mesma música ao mesmo tempo, ou em um filme, ou alguma outra coisa. O que eu escrevo aqui às vezes se torna familiar para alguém, e mesmo quando eu estou escutando uma música da Jewel que eu acho que ninguém mais no mundo todo, nem mesmo a Jewel escuta, quando alguém reconhece como seu algo que eu escrevi, a vida fica mil vezes mais leve. Eu não sei muito sobre leveza a não ser o forte desejo de possui-la. Eu sei pouco sobre paz de espirito, relaxamento, calma e tranquilidade tirando o fato de querer mais que tudo nessa vida, ter cada uma delas. Dizem que a paz e a coragem para mudar o sentimento está dentro de mim, mas em muitas crises de ansiedade eu não tive tempo ou ar para buscar qualquer coisa que não estivesse na superfície. Aqui estamos de novo. Eu e o papel, após mais síndrome de ansiedade generalizada. Deram um novo nome ao meu monstro, e eu dei a ele uma nova cara. Neste exato momento o amor da minha vida lê livros novos ao meu lado enquanto eu escrevo sobre o que passou. Ele não estava aqui, ironicamente ele nunca está quando essas coisas acontecem. O tempo que antecede a sua viagem é o tempo que eu tenho para me fortalecer e deixa-lo ir com a tranquilidade dos que aguentam suas próprias presenças e convivem com seus próprios barulhos. Eu não estou sozinha. Eu nunca vou estar sozinha mesmo que a noite esteja. Quero acreditar (melhor trocar o “quero” por “vou”) vou acreditar que ficar sozinha faz parte do meu aprendizado, da minha escrita, da minha saúde, da minha fé. Quando eu chorava e ela me dizia que medo é o contrário e fé eu fechei os olhos e lembrei o tanto de gente que me cerca, me ama, me apoia, e vai estar aqui todas as vezes que ele não estiver. Meu amor é meu impulso, e não minha muleta, e é preciso que eu me apaixone por mim perdidamente, e que essa paixão seja suficiente para afastar de vez todos os meus medos. Eu me amo. Mesmo que eu me ache esquisita e tenha um gosto musical estranho, e sinta diferentes coisas por diferentes pessoas e amor grande parte do tempo. Eu não quero que o pânico leve mais nenhum dos meus dias contados. Eu quero viver bem, ser feliz, viver sem medo. Eu quero descobrir o significado de paz e leveza e que ambos me acordem e me coloquem para dormir todos os dias. Um dia ele me deu um cartão postal que dizia “What a big muscles you have”, para me lembrar do quanto eu sou forte. Eu sou forte, forte o suficiente para ser frágil, me recompor e ser forte de novo. Forte para sempre, forte para não ter medo, forte para viver, forte para ter paz, forte para ser tranquila, forte para lutar contra meus demônios internos, forte para não ter nenhum deles, forte para viver mais forte. E que toda dor fique enterrada em um lugar de onde nenhuma outra dor volte. De agora em diante só alegria. Alegria e força. Forte.

Wednesday, June 06, 2012

Conto cafona sempre tem moral da história.

Guardava seus homens em gavetas separadas. Cada um servia para um momento de sua vida, cada um serviu, mas tinha uma mania irreparável de conservá-los muito bem, embrulhados em papel de seda e prontos para serem acionados quando ela precisasse. E eram. O oficial era outro, a quem ela era devota de todas as maneiras. A ele entregava a alma, as pernas, o coração, mas tinha plena consciência de sua falta de consciência, de suas fraquezas, seus dramas e questões. Sabia mais deles do que qualquer pessoa, e ainda assim fazia análise, yoga e meditação, para que nunca faltasse a noção exata do emaranhado que era. Quando o homem de sua vida naquele momento se ausentava emocionalmente, se negava a pegar em sua mão, entender seu chororô ou fosse menos amoroso, ela mentalmente repassava as gavetas e lembrava quem ainda estava lá, e quem de verdade daria conta dela se ela precisasse. Imaginava um rompimento dolorosíssimo até que o atual fosse para uma das gavetas e um outro subisse ao posto, e assim, nesse eterno retorno infernal, ela vivia sua vida de mocinha muito moderna que era. Até que um dia ela se apaixonou por um par de olhos verdes. Nos minutos em que se apresentavam ela recordava mentalmente o que podia tirar de casa e levar para outro estado, quando ela e o novo amor, que a compreenderia mais que tudo no mundo, fossem finalmente ser felizes juntos. E assim ela se viu na obrigação de contar ao novo amor o que tinha sentido. Disse que há muito tempo não se via desse jeito, que sabia que estava apaixonada, que precisava dizer, que ele precisava saber o quanto ela estava ferrada emocionalmente por ter agora que ir morar com ele e deixar toda a vida que tinha construído para trás. Os olhos verdes, apaixonadíssimos por outra mocinha moderna, pediu desculpa a nossa personagem e disse que nunca iriam dar certo, que voltasse pra casa e repensasse a forma com que ela via o amor. Chegou em casa e arrumou o armário. Pegou uma mala grande e tirou um a um seus homens embalados num papel de seda e os fechou num canto escuro do quarto. Discutiu com seu homem naquela noite. Faltava paciência, carinho, sorte (?). Sobrava companheirismo, compreensão, amor. Ninguém daria conta dela. Ninguém a pegaria pela mão e a levaria pela vida dizendo que ficaria tudo bem. Ninguém ouviria suas lamúrias, ninguém teria paciência para aguentar suas convicções, ninguém iria querer ouvir as mesmas histórias pela milésima vez, ninguém ia aguentar seus amigos amorosíssimos, e muitas vezes homens também, ninguém ia apontar suas qualidades ao invés de apontar seus dramas, ninguém ia fazer por ela o que ela nunca tinha feito. Na manhã do dia seguinte fez uma lista digna dos livros de auto-ajuda que lhe causavam asco. Colocou em uma coluna as coisas legais da sua personalidade, e na outra as coisas que ela não gostava e que os outros falavam que não gostavam também. Não se deu o trabalho de ver qual delas ganhou. A mocinha se achava moderna demais para exercícios dignos da seção da livraria na qual passava longe. Pegou mais uma vez a mala, foi até a esquina e abriu. Deixou que eles fossem embora, um a um, e que servissem para outras mulheres, fossem suas almas gêmeas, mas nunca seus inquisitores. Decidiu que no futuro vai ter algo legal guardado, se for o caso. Resolveu acreditar no futuro, nela mesma, e decidiu por fim que a coluna das coisas legais seria maior mesmo se não fosse. Como fez outras vezes com seu próprio corpo, foi até um estúdio de tatuagem e marcou um trovão no pulso direito. Quis atestar sua força e eternizar o sentimento. Saiu se sentindo estranha. Estranha e feliz. “Eu sou foda” pensou como se escrevesse uma letra de funk. “Eu sou foda e preciso me amar do jeito que eu sou.” Ninguém vai mesmo fazer isso por ela. E ela por fim sabia disso.

Friday, June 01, 2012

Astrologia

Aula de astrologia. Cadernos a postos. Caneta verde pra prestar atenção. Minha professora é minha amiga querida. No meio da aula eu tenho vontade de correr e deitar a cabeça no seu colo enquanto ela me conta que as estrelas e planetas vão voltar cada um para o seu lugar, embora eu confesse que a revolução astral transforma quando mexe. Mas se mexer muito machuca. “Quem tem urano no ascendente é um et na terra”. Eu tenho. Urano no ascendente e um escorpião no karma que olha para os lados o tempo todo, tem o rabo longo e a paciência curta, e que ama, ama, ama demais. Ascendente em sagitário. As pernas grossas não vem só dos avós do leste europeu, e sim de sagitário, signo que ensina, que sabe, que explica. Ela diz que as mulheres regidas por sagitário fazem o estilo gostosas, eu penso que Sagitário é regente das piriguetes como Nelson Rodrigues é regente da Tijuca. Sinto falta da Letícia Novaes e sua marte gay sentada ao meu lado anotando as loucuras de quem tem sol em capricórnio e testa virada pra lua. Lelê na lua. Lua em leão. Criança que foi mimada, leão na casa da mãe, mãe canceriana. Eu sou uma caprina que entende bem o que é amor porque cresceu cercada dele. Dela. Volto pra aula. Vênus, o planeta do amor anda pra trás. Eclipse em gêmeos, eclipse em sagitário. “Cuidado com a saúde mental” cuidado. Olha para o pulso e se lembra de respirar. Lembra do que a Letícia disse sobre as paixões repentinas que na verdades são trovões. Penso em todas as coisas passageiras da minha vida, dos amores de um dia até as crises de ansiedade. “Meu amor, quero tatuar um trovão”. Ele como sempre já tinha um desenho perfeito para mim, ele que abre a porta do quarto adiantando o que eu quero dizer, ele que beija meu pescoço enquanto eu pergunto se vai ficar tudo bem, ele que sai de casa como um moço do século passado para ganhar a vida por mim e por ele, ele que entende meus medos, minhas alegrias, que não me permite dizer que sou frágil, ele que sente meu cheiro todas as noites, ele, a quem eu amo com uma devoção profunda. Ele tem sol em peixes. Ele tem sol em áries. Ele tem sol em peixes. Ele tem sol. Hoje um gato dorme sobre a minha jaqueta de veludo enquanto o outro se aninha na minha coxa. Sagitariana. O et na terra que mal sabe onde está. A cabra que sobe a terra. O elemento terra, e 26 anos procurando terra firme para aportar. Os astros tem me ensinado demais. E tomar consciência é tomar cuidado e tomar juízo. E juízo é o que tem para a noite de hoje. Take it.

Wednesday, May 30, 2012

Ryuichi Sakamoto e Alva Noto.

Mesmo que eu não queira, eu escuto a música e o coração bate mais forte. Só quem tem ansiedade de verdade entende o que é ter uma revolução interna, intensa, sem sair do lugar. O que mexe é o coração, o pulmão, o peito. Por fora os ombros travam, você não muda de posição, e a cabeça trabalha a mil. Será que ele sabe que eu sinto isso agora? Será que ele sabe o que eu escrevo nesse minuto ao invés de escrever o trabalho? Será que ele sabe? Faço uma lista mental de todas as coisas que eu preciso cancelar. No som o som que ouvi há quase um mês atrás, sentada de olhos fechados em uma sala escura, o barulho reproduz a sensação. Não vou mais. Até lá. Sentir isso. Tremer. Ficar ansiosa. Olho para o pulso direito onde está escrito “breathe”. Respiro, o corpo treme, a cabeça treme, o peito treme, a perna treme. Desligo o som. Paro de escrever. Ouvir esse tipo de música é extremamente doloroso para aqueles que são frágeis demais. Meu forte é ser frágil. Eu sou boa nisso.

Wednesday, May 16, 2012

"Protect me from what I want"

“Eu jurei, que ia voltar, amor.” Jurou que um dia voltaria para casa e a compreensão e o tempo seriam recompensados com afeto. Eu jurei que um dia voltaria a vê-lo, eu nunca senti isso por ninguém, e engulo o incômodo tendo a certeza de que a compreensão e o amor quieto como uma criança serão recompensados. Meu amor é passível de levar uma bronca quando se manifesta, tem que se manter quieto feito uma donzela do século 17 enquanto o que existe em mim seja barulhento e precise ser gritado. Volto para casa com uma bagagem a mais do que eu levei. Não sei o nome do que eu carrego, mas sei que é pesado o bastante para me tirar o sono. Eu encontrei uma casa da qual eu não queria sair. Dizem que é assim que a gente se sente quando entra num novo apartamento e sabe que aquela é sua nova moradia, mas esta casa flutua entre tempo e espaço, e é bom que continue longe de mim. Hoje ele disse que ia ficar fora de novo. Eu já não sei se me importo mais. Se acostumar a ausência é uma das piores coisas que se pode fazer com o amor. Além de abrir os olhos e vislumbrar a paixão entrando na sua vida feito um pequeno demônio querendo derrubar tudo de sólido que seu amor construiu. E eu nunca tive exércitos o bastante para me afastar do que realmente fala ao meu coração.

Monday, May 14, 2012

Quem inventou o medo?

O que você sabe que conseguiria deixar pra trás? Quem você sabe que seria capaz de amar? Quantas pessoas cabem em um órgão? A parte designada para o amor é de que tamanho? Quanto tempo existe para que você faça tudo? Quanto mede a sua coragem? Até aonde é o bastante? Como você sabe que seu amor é recíproco? Quanto dura aqui e agora? Quantas mãos eu posso pegar? O que significa o silêncio? Como você sabe se é errado ou não? Quem inventou os princípios foi a mesma pessoa que criou a moral?

Thursday, May 03, 2012

Admirável mundo velho

Eu estou aqui, observando a luz que entra pela janela da sala, ouvindo os vizinhos gritarem, espiando a obra do banheiro, e escrevendo. Minha casa agora é meu escritório. Trabalho sobre a toalha de chita, tentando desviar os gatos dos teclados e de vez em quando suspirando o vento geladinho que passa pela porta. Eu estou aqui agora, digitando palavras para terceiros, o que é basicamente o que eu fiz a minha vida inteira. É preciso foco para não lembrar de uma coisa bonita e ir correndo meditar para agradecer a generosidade do mundo. Ontem me senti tão feliz que pensei em comprar um olho turco. Mas quem é que vai ter inveja da minha felicidade simples? Eu só escrevo, e embora isso faça com que minha vida seja preenchida por um bem estar sem igual, não acho que isso inspire desejo a alguém. Meu dinheiro é canalizado para a casa e algum vestido bonito, meu sorriso tem a direção de um par de olhos grandes e castanhos, meu corpo se move para a cama e para a música, meu amor tem lugar e nome, mas se espalha pela cidade feito essas folhas de outono. O que eu tenho de mais precioso é tão simples que cabe em uma folha de papel. Os dedos digitam o som do meu destino, eu não poderia fazer nada na vida que não fosse estar aqui e agora. Empresto minhas letras para um roteiro que eu amo e acredito, as palavras que sobram eu guardo com carinho para um outro livro, documento físico do meu amor. Eu nunca precisei de tão pouco para ser feliz. Embora esse pouco seja meu universo, e nada pode ser maior ou melhor do que ele. Nada pode ser mais importante do que saber escrever estando feliz. Aprendi.

Monday, April 09, 2012

Choke.

Engasguei. Liguei para pedir conselho (permissão). De manhã abaixei os olhos e pedi proteção. Gratidão. Estar aqui agora, em qualquer lugar que seja, merece um agradecimento sincero.
Como você se despede de quem você ama? E se o que você quer dizer é apenas um até logo, nos vemos semana que vem, só que prum chá, um cinema, um brainstorming, uma ideia genial. Semana que vem, quarta feira, às 17h, vamos conquistar o mundo?
O fim faz parte do processo.
Dizer adeus faz parte do processo.
Até mesmo um até logo leva sua pele embora, parte do passado embora, muitos papéis embora, embora todo fim faça parte do processo. In bora.
O fim não precisa doer se a gente entender que logo ali na esquina todos se encontram de novo.
De uma forma leve, mais delicada, mais amorosa, cada um no seu lugar, fazendo o que ama, fazendo com quem ama, sendo feliz e pronto.
“É preciso estar atento e forte”, trocar de pele, agradecer a generosidade, abraçar forte, respirar o ar do lugar, beijar cada um no rosto, e levar cada um por dentro.
Toda despedida constrói, deixa ali um pedaço, um novo você.
Seja grato às despedidas.
Seja generoso.
Deixe sempre todo amor que te for disponível.
Deixe a porta encostada quando sair.
E pelo amor de Deus, seja feliz.

Sunday, April 08, 2012

That´s not my name.

A ansiosa
As olheiras que entregam
O tilintar no teclado
O barulho dos meus dedos no teclado
O barulho que ela faz
O medo insolente e repentino
A carinhosa
A doçura
A nostálgica
A falta de saco
A panicada
A que quer engolir o mundo
A que quer resolver os problemas
Achar o timing perfeito
A que paraliza no meio da rua
A que tem tanto amor quanto esperança
A que toma uns remedinhos
A que fala sem pensar
A que troca “pediatra” por “veterinário”
A que fala
Que sente
Que chora
Que palpita
Que desdenha
Que sente dor
Que sente medo
Que sente pânico
Que sente amor
Que sente amor
Que sente amor
E que sente gratidão por ser todas essas.
Não ser a mulher que querem que eu seja na segunda feira me faz ser a mulher que eu quiser ser.
Há liberdade na loucura.
Há loucura na liberdade.
O tempo não pertence a ninguém senão a mim.
Se eu segurar a onda, bom, se não, por favor esteja por perto.
Não julga, abraça.
Menos afetado, mais afetivo.
E paz. Sempre. Deseja isso pra mim toda vez que me encontrar.
Tá?
De resto acontece.
A-c-o-n-t-e-c-e.

Thursday, April 05, 2012

O dia que Catarina nasceu.

No dia em que Catarina nasceu eu despertei antes da hora.

No dia anterior fez sol e chuva e foi um dia lindo, cheio de amigos, risadas e amor. Catarina não foi. Talvez já soubesse que seu dia era o dia seguinte.

Quando deu seu pontapé inicial, fui despertada da cama. Alguns minutos depois sua avó me ligou da estrada dizendo que talvez a moça estivesse pra chegar.

No dia que Catarina nasceu meu mundo entrou em câmera lenta.

Escolhi a roupa mais confortável, peguei o jornal, almocei e fui tomar café na cafeteria mais cara do shopping. Aquele era meu champanhe para Catarina.

Vi uma família com 3 filhos e uma avó se dizendo coruja. Escolhi oito dos melhores chocolates e gritei que Catarina estava chegando, que sua avó estava na ponte e eu precisava brindar o ano que começava hoje de forma doce.

Embalei um bombom para cada membro das duas famílias, agora uma só, e entrei por fim no taxi anunciando que aquela era uma corrida especial.

Estou aqui agora. Minha irmã esta lá, se contraindo, esperando a bela que já chega enquanto no taxi meu coração está do tamanho de um balão inflado e eu tenho certeza de que nada nunca foi ou será do jeito que eu sinto agora.

A mãe de Catarina é minha irmã mais velha, que já foi minha mãe algumas vezes e agora vai ser mãe dela em tempo integral.

A menina que está para nascer é uma trisavó russa, outra Suíça, bisavós que construíram a história de uma cidade, avós que inventaram o amor, a filosofia e a academia, tios com personalidades distintas, mas que amam igual.

Catarina é uma avó da Letônia com nome trocado, é Glícia, Laura, Letícia. Catarina sou eu. E todos nós somos este pequeno pedaço de gente que chega para mudar nossas vidas.

Catarina hoje é todo mundo. E o mundo todo vai parar quando ela nascer.

O dia que Catarina nasceu foi o dia mais feliz da minha vida. O dia de Catarina. 25 de marco de 2012.

Gênesis.

Monday, March 19, 2012

Pills, Pills, please.

Sua irmã não te atende. Você perdeu o posto para a sobrinha prestes a nascer e está muito feliz com isso. Desce a ladeira de casa pensando que vai ter que segurar a pequena enquanto conta seus martírios, mas tem certeza de que entre uma mamada e outra ela vai estar lá para te ouvir, impávida como a idish mami que se tornou mais forte, mãe, porém sua irmã mais velha, e com isso até mesmo a bebê que vai nascer (e que eu já amo com a devoção de um filhote) vai ter que entender.
Seu analista não te atende. Enquanto isso você continua descendo a ladeira até chegar ao ponto de ônibus para ir ao trabalho. Tem que ser rápido, porque uma vez lá é hora de engolir o choro e respirar o briefing. É preciso agir rápido.
Sua mãe ainda não pode te atender. Precisa ser poupada dos falatórios da noite anterior, e mercúrio que logo agora resolveu andar para trás (e que rege entre outras coisas importantes, a comunicação)se meteu no meio e fez telefone sem fio entre uma cidade e outra. Não nos entendemos, e até isso é inédito.
Ando mais um pouco pensando em qual das minhas amigas entenderia o que nem eu sei o que é. Resolvo poupá-las. A esta hora já perdi um ônibus bom (dos que tem ar condicionado) e estou perto do ponto ao ponto de já enxergar meus companheiros de espera. Acabou.
Engole a dor, o choro, olha para o céu azul clarinho, e percebe que um fim de semana complicadíssimo não é nada perto do bonito que a vida vai te trazer.
Percebo que é tudo uma questão de timing correto. Existe a hora de falar, ficar quieto, dizer que ama pela primeira vez, cortar o que não te serve mais, atender o telefone, falar em uma reunião, começar uma medicação que te cure, abandoná-la por excesso de confiança.
Abandonei. Deixei por uma semana que a cabeça resolvesse o buraco com anti-corpos ou quantos corpos fossem necessários a ansiedade que existe em tamanho colossal.
Um, dois, três, quatro, cinco, comemoração, seis e se cai. No sexto dia ela cedeu.
E veio o medo, a perna inquieta, o ouvido que é pinico pra ouvir as besteiras de quem quer dizer, e a fraqueza, a enxaqueca, ansiedade, e....
E aconteceu.
De um lado ele me acolhe com um vinil de músicas felizes e comida, do outro ela me diz, “um gole de água e uma respiração” do outro, aquela que mais tem pressa de me ver feliz estrebucha contra a terapia, os remédios, o método.
Perai, e esse azul clarinho no céu pela manhã? E o abraço quente daquele que tanto me ama? E os conselhos da irmã barriguda que descomplica a vida com um gole de água? E o trabalho que vai andando, e acontecendo, e ficando bom, mesmo quando fica ruim?
A felicidade existe, mas há de existir nos momentos mais turbulentos da minha vida. Quem é que disse que depois da tempestade eu não me permito levantar como um gigante?
As coisas vão acontecer, eu sei bem que vão. Nem que para esperar por elas eu tome um comprimidinho aqui e outro acolá.
Para algum lugar esse tanto que eu tenho precisa desaguar. E eu prefiro que não seja pelo canto dos olhos. Eu prefiro que seja aqui, martelando teclas e formando palavras, sorrindo para o infinito e rindo da fraqueza que passa.
A sorte da vida é que tudo passa. Até os momentos ruins.
Passou.
Amém.

Tuesday, March 06, 2012

"Fé cega, faca amolada"

"Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo. Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo."

Deixar o controle é diferente de perder o controle. Deixar é consciente. Perder é imediatista, incontrolável, feio.
Eu deixo, tenho deixado todos os dias um pouco. E dói. Aprender a relaxar e confiar depois de ter feito o que podia é das coisas mais difíceis para os ansiosos. Mas eu aprendo. E cada dia mais olho o céu, os gatos, as ruas, e mesmo que por muitas horas eu esteja olhando o computador, eu espero por momentos felizes encarando o azul clarinho da janela.
2012, eu tenho tanta fé em você, e eu sei que isso é ansioso, então talvez essa fé que espreme o peito durante o dia seja mesmo em mim.
Eu quero tanto ser feliz que dói, e tenho certeza de que bons ventos vão soprar ideias boas e trazer os projetos que eu tanto quero. Escrever é preciso, escrever é navegar, e enquanto isso me pagar as contas, ou quando me pagar as contas do jeito que eu quero, eu só devo desejar conhecer Lanzarote e ter saúde junto aos meus. De resto é cobiça, e que eu me proteja disso.
Eu tinha tanto medo das transformações e agora tiro as cascas com meus próprios dedos. O controle vai indo, mas existe a urgência da felicidade, de ser feliz agora, ás 18h de terça feira, de fechar os olhos e acreditar que as coisas estão vindo, vindo, vindo, e que vai ser merecido, tranquilo, na velocidade contrária dos carros da avenida que eu vejo antes do azul clarinho.

Vai ser.

“Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser, muito tranquilo.”

Thursday, February 09, 2012

Friction.

Enfim comprei um desses aparelhos modernos. Me dei conta disso enquanto procurava uma caneta desesperadamente na minha bolsa. Ter um caderno e não ter a caneta é o novo ter um cigarro e não ter o isqueiro (e vice versa).

Embora as palavras quando vem dessa forma precisem ser escritas manualmente (o tirar de si envolve esforço físico) confesso que o aparelho veio a calhar.

Estou a duas ruas do consultório. Estou a duas ruas do meu amado algoz. Estou a duas ruas de distância, da distância de não vê-lo por quase um mês. Ainda não sei se quando eu chegar lá vou confessar que hoje quase não fui. Ou que quando me convenci de que deveria ir, quase fumei um cigarro. Ele ia sentir o cheiro e eu ia sentir vergonha. Eu nem fumo mais.

Desci do ônibus e ando enquanto escrevo. Devem pensar que sou uma adolescente digitando mensagens de amor e ódio no passo do meu all star que há tempo não saía de casa. O que eles não sabem, ou o que eu não sabia ainda, é que este é sim um tratado sobre amor e ódio, e agora enquanto eu aperto a campainha da sala dele eu percebo que nunca precisei tanto estar aqui quanto agora.

Queria perguntar o significado da palavra “terapia”. Deixo pra depois. O que importa agora é poder falar tudo o que eu quero, chorar, gritar, espernear que ele nunca vai me julgar. Ou na verdade vai e não me conte. Será dai o sentido de "transferência" doutor? Será que é isso que meu pai deveria ter feito comigo? (neste momento o programa de auto correção do aparelho troca a palavra "deveria" por “perverso”. iPhone também tem ato falho?)

Meu Amor você esta longe. Um longe perto, claro, sem dramas. Mas é que esse longe perto se estende por outros lugares da cidade e vem pousar pesado no meu coração. Você me liga e eu sou irônica. Não deveríamos maltratar quem a gente ama, mas meu transbordamento quase perde o controle e eu venho aqui dizer isso pra ele. Dizer tudo o que eu queria te falar, mas não posso, ou não devo pelo bem do nosso amor.

Eu credito que ele ainda existe, só acho que não estamos dando a ele janelas para escoar e tomar o mundo. Não te trago mais nos pulmões. Te vejo personagem kafkaniano para o bem estar da nossa casa e dos filhos que nunca teremos e não tenho coragem de dizer uma palavra.

Morro de gratidão e ódio. Eu levo o filtro solar e você traz o mundo real, eu me acho má e ao mesmo tempo injustiçada. Eu não me acho mais. Eu não sei aonde você me colocou.

Eu sonho todas as noites que estou com outra pessoa por obrigação. Toda noite entre duas e seis da manha você me desdenha com uma frieza gigantesca e ao mesmo tempo familiar. Tenho medo do que pode acontecer. Eu tomo o comprimido, medito, falo com ele e penso em sair daqui e ir direto tomar uma caipirinha. Eu continuo sem entender o que você quer. Eu só quero acreditar que isso tudo é fase, treinamento militar para quando as minhas palavras chegarem onde eu quero que cheguem, você se lembre do tempo que eu te esperei sem saber de nada.

É preciso acreditar em algo, não é mesmo?

Ele abre a porta. Hora de entrar e falar pra ele tudo o que eu só sei dizer escrevendo.

E caso você me pergunte baby, esse texto é ficção.

Monday, January 30, 2012

l-u-l-l-a-b-y

Você acha que a gente está evitando uma discussão de relação?
Ouve isso: (liga o som)
"É a banda daquele cara que você gosta."
Ontem eu sonhei mais uma vez que você me deixava, e dizia que não sabia se um dia ia voltar. Eu não sabia dizer se o que eu sentia era solidão. Estava mais para culpa, desespero, inquietação.
Você deixou de me amar a meses, entre uma e duas da manhã.
Eu acordo e vejo o relógio, mas você está dormindo atrás de mim.
Você chega tarde e quando deita, nós já nos separamos.
Você acha que eu deveria discutir isso na terapia?
Você também odeia esse cheiro de manteiga que tem esse remédio? Ele me faz dormir.
Você me ama mesmo assim?
Você acha que eu sou neurótica?
Você acha que eu sou insegura?
Eu sou.
Escuta isso (aumenta o som): Você nunca gosta de nada que eu gosto. Se eu fosse tão folk assim eu não gostaria de nada que... Será que eu não gosto do que você gosta?
Será que a gente está evitando uma discussão?
Será que meu sonho é um aviso?
Será que eu não te amo mais?
Só senta aqui e ouve isso por enquanto, faz parte do que eu gosto, e eu preciso de outra voz. Eu preciso escutar outra coisa que não carregue seu nome.
Aumenta.


*Ela estava ouvindo "Pa pa power" - Dead Man´s Bones

Saturday, January 21, 2012

No meio do caminho.

Chego à casa fatigada. Chego depois dele. Chego com a cabeça pesada, chego com o coração batendo forte, chego.
No meio da mesa tinha um presente. Tinha uma caneca dentro do embrulho. Escrito na louça “tinha uma pedra”, tinha uma pedra no meio do caminho.
Me lembro destes mesmos dias do Janeiro passado. Ele estava fora trabalhando nos fins de semana e eu tinha começado a tomar os remédios. Tinha um show, e elas iam. Eu deveria ir, ela disse, deveria ir bonita e espantando a tristeza. Chorei de medinho alguns minutos antes de subir e me arrumar, elas estariam me esperando na esquina, as duas, e assim, entraram uma de cada lado, ao meu lado, e me escoltaram até o show.
No caminho eu quis avisar que naqueles dias eu não estava muito bem. “Síndrome do pânico” ele disse, e eu achava que precisava contar para o mundo inteiro já que tinha certeza que eu tinha virado um E.T e que todo mundo perceberia que eu estava diferente.
Elas não notaram, eu não estava diferente, eu estava com medo, mas o medo passou a medida que uma puxou meus braços ensaiando uma coreografia mais avançada e a outra me dava goles de água e me contava sobre as pessoas que estavam ali. E assim rimos, muito, a noite inteira, e terminamos a noite comprando batatas fritas baratas em um posto de gasolina no Jardim Botânico.
Aquele foi o marco zero para o meu processo de cura, e talvez elas não saibam disso até hoje. Talvez também não saibam que neste mesmo janeiro, eu precisei de uma dose e um respiro a mais para ter forças para lidar com um cotidiano que voltou a me amedrontar. Elas não sabem que eu tive as mesmas palpitações e o medinho boboca de quem duvida por um segundo de si mesmo, eu não contei, eu não quis preocupar, a única coisa que elas sabem é da escrita que volta a pulsar em meus dedos e urge por um espaço maior em minha vida.
E foi o suficiente para que numa noite de sábado, após voltar para casa com questionamentos de janeiro passado, elas se fizessem presentes através de um presente.
Cheguei a casa e tinha uma caneca. Nela os versos que eu tatuaria no peito para nunca mais esquecer. Na caneca tinha Drummond e uma pedra no meio do caminho, e o amor das minhas duas amigas que me fizeram ter certeza de que meus pulos são maiores do que as minhas pedras, e que mesmo elas, as pedras, se transformarão em palavras.
Minhas santas palavras.

Para Ana T. E Renata Grimberg.

Sunday, January 15, 2012

Sabotagem.

Nostalgia provocada é uma espécie de automutilação.
Cada vez que você volta ao mesmo ponto ou procura seu sonho já pela manhã. (Quando ele deveria ocupar no máximo uma folha do seu diário) é o mesmo que arrancar um pedaço da sua memória, da sua pele, do seu respeito.
Você provoca a saudade, a falta de ar, as variações de humor, o chorinho de saudade. Provoca porque não entende como pode ser tão feliz e ainda ter uma ferida aberta a um ponto que ainda sangra.
Você provoca a dor no peito quando vai ver. Você vai até lá e olha pela janela enquanto ela dorme na cama dele com as marcas de um lençol barato que antes eram suas. O cheiro de pão torrado pela manhã. Um espécie de barca de pão francês que ele fazia para aplacar sua fome. Resquícios de uma boa cozinheira da cidade longínqua que ele abandonou. Saudades da cidade que você abandonou. Éramos dois imigrantes solitários, mal entendidos e carentes de arte.
Encontramo-nos, amor. E assim vivemos felizes até o amor acabar. Acabou o seu também, embora o fim e as tragédias tenham sempre levado meu nome nas legendas.
Eu não te amo mais, você não me ama mais, mas eu era a flor da sua cama, da sua voz, e meu egoísmo sem fim, e meu sentimento cachalote não deixam de te colocar a noite no inconsciente junto as minhas pílulas para dormir.
Ou então eu te ame ainda, te ame loucamente, morra de ciúmes, me contorça ao ver as marcas que você deixa pela cidade e o buraco vazio que ficou por entre os meus ossos.
Mas depois me lembro que nos deixamos, e que o motivo era real. Tão real quanto as paredes sólidas de uma casa construída com o amor de um outro a quem devoto a vida.
Mas veja bem, eu não queria que nos abandonássemos. Eu só não queria que me invadisse os sonhos diariamente em uma espécie de tortura silenciosa.
Não existe jeito, meu querido amor. Vou trocar as pílulas para dormir. E fechar bem a porta todas as noites.